Se indo pro campo

Num final de tarde muito frio do inverno de 2093, em que o sol apagado ia derramando seu caldo morno por sobre os horizontes da cidade de Pelotas, o velho Marcio – como de costume – dirigia-se ao galpão de sua chácara.

    Naqueles finais de século XXI, Marcio Nunes Corrêa Neto, então com 65 anos de idade, rememorava sua vida e a de seus antepassados, repassando – à tradição oral – os costumes e hábitos antigos... enquanto fechava um mate gordo à beira do fogo de chão.

    Como era útil o progresso – principalmente o científico!... Como era bom que um homem como ele – um homem estudado, um homem de luzes – considerava-se um livre pensador – pudesse utilizar o progresso e toda a sorte de invenções modernas para cultuar o passado. Era um homem do futuro, sim!... mas sentia-se profundamente apegado aos tempos d´antes.... e orgulhava-se de ter feito sua chácara aos moldes originais de uma “estância chimarrona” do século XVIII – é claro que “recheada” de adereços modernos muito úteis. Seu galpão, por exemplo, era uma estrutura quadrangular de 8 metros de largo por 5 metros de fundo, com paredes de tijolos de barro – que ele mesmo fizera através de suas pesquisas sobre as olarias antigas, com barro sovado à pata de boi manso, e coberto com capim de santa-fé – que ele mandara clonar ao arquivo biológico da Faculdade de Agronomia. No centro do quadrilátero calçado de pedras mouras, um imenso rodado de carreta restringia e abrigava o fogo de chão – sem fumaça nos olhos, graças a um poderoso exaustor que ele “escondera” na cumeeira da quincha.

    Sentado aos pés daquele altar erigido ao gauchismo, o velho Marcio ensinava a gurizada – os netos, os sobrinhos e os amigos destes – sobre as coisas do Rio Grande antigo, que ele a-prendera de seu avô paterno, Marcio Nunes Corrêa, que além de emprestar-lhe o nome e o tino campeiro, havia ajudado a criá-lo. Havia sido, seu avô, Médico Veterinário – como ele – e um homem do campo, conhecedor e apreciador das artes e costumes do gaúcho em sua forma mais pura e verdadeira, além de poeta e cantor; junto a seu companheiro e amigo Fabiano Bacchieri, poeta, cantor e guitarreiro – e gaúcho acima de tudo!

    E, como de costume, quando o velho Marcio – cevando o mate – iniciava sua narrativa, seis pares de olhos adolescentes o fitavam, num misto de expectativa, ternura e obediência cani-nas:

    – Que coisa linda, guris, eram aqueles tempos, quando meu avô Marcio era moço... que indiada bem gaúcha ainda existia. Como dizia um poema do célebre Aureliano de Figueiredo Pinto: “Da meia-noite pra o dia, um taura não dorme mais!”, naqueles tempos, gaúcho ainda madrugava pra sair pro campo, isto quando dormia... Eram uns bárbaros!... Meu avô conhecia gente – e ele mesmo sofria de insônia – que quando tinha serviço grande no outro dia, DA MEIA-NOITE ÀS SEIS, já não dormia mais, naquela ânsia da fulia com gado, logo de manhã bem cedo. E que coisa linda é uma noite num galpão com fogo bem grande...

    – E era assim a lida de campo nos fins do século passado e inícios deste nosso, gurizada... segundo contava meu avô Marcio: “Naqueles tempos ainda existiam estâncias grandes, com até 2.000 ou 3.000 hectares – a medida antiga era a quadra (1 quadra equivalia a 87,4 ha) – principalmente na fronteira! E que lindo de manhã cedo – antes de clarear o sol – sentindo o cheiro de pasto molhado de sereno misturado com esterco e barro de mangueira. Ainda me lembro bem da cavalhada entrando mangueira adentro, bufando e retoçando... soltando fumaça do lombo quente contra o frio da cerração baixa. A gente encilhava despacito – revisando as garras – com a cachorrada na volta – num alarido a cosa mais linda... adivinhando fuzarca!... Pois lida de campo foi o jeito que o gaúcho descobriu de seguir fazendo  suas estripulias do tempo em que caçava gado bagual. Então, pessoal, aquela gente, rindo e brincando – mesmo com geada grande – campeava a volta do pingo, montava e saía... SE INDO PRO CAMPO!...”

    – “E conto pra vocês – que são gente nova: naquela época ainda se parava rodeio nos potreiros e invernadas destas estâncias. O rodeio era um local pré-determinado – normalmente um pelado de campo – onde se costumava juntar o gado. Uns atacavam pela volta de fora en-quanto os outros laçavam alguma rês ou terneiro abichado. Quando o animal era grande, um laçava do pescoço ou das aspas e outro garreava das patas e, enquanto o cavalo ficava cin-chando sozinho, um dos campeiros apeava e apertava a rês – torcendo o pescoço. E que lindo era quando um animal disparava do rodeio, principalmente algum terneirote de sobre-ano ou boizito novo. A la pucha!... lo saíam dois campeiros, encostelavam os cavalos e traziam o bruto – DE MANO – paleteado!... guasqueado a mango e riscado de espora!... e lo metiam a pata de cavalo no resto do rebanho!”
    
– Ah gurizada!... de todas as coisas que se perderam nos horizontes do passado, uma das mais lindas era a tropa!... De tantas outras facetas do gaúcho, a tropa foi que resumiu e abrigou o espírito de liberdade dos changueadores e vagos quando os aramados les sacaram o ir e vir ao sabor da sorte e da vontade. Foi o único jeito que o gaúcho encontrou de continuar andejo. Até isso o meu avô Marcio fez... ele contava dum tal CORREDOR DAS TROPAS... em que eles – por gauchada nomás! – por vários dias e noites, botavam tropa na estrada, rumo à INVERNADA DA PALMEIRA!... Se eram tigres!... já naquele tempo ninguém mais fazia isso – era só caminhão carregando gado, pra lá e pra cá!... Mas o velho Marcio se considerava um gaúcho dos antigos... como eu também acho que sou!...

    – É por isso, gurizada, que eu não me canso de repetir pra vocês: Temos que respeitar e estudar nossos antepassados!... Vocês sabem, por exemplo, que os gaúchos antigos exerciam entre si uma espécie de seleção natural?... Sim!... desde pequenos, através das brincadeiras, como passar a galope, ladeira abaixo, de em pelo – enquanto outro pealava o cavalo – para ensinar o que estava montado a “sair” das rodadas! Então, me digam, isso é ou não é seleção natural?... E o meu avô sabia cultuar os antigos... gente como o avô dele... que ele chamava O CERNE DO RINCÃO DOS VALOS...

    – E a gauchada de antes – assim como a de hoje – gostava de afogar as mágoas na ca-nha!... “¡Dioses benditos, solo el nombre – compañero – se me pone el tragadero como pa´hacer gorgorito!...” como disse o poeta uruguaio Santos Garrido. E era por isso que o meu avô Marcio dizia: “Quando não consigo resolver algum problema desses que não tem resolução, encilho cavalo e saio pra estrada... campear um trago de canha... pois a vida toda cambeia de rumo DEPOIS DE UM BOLICHO!...”

– E a nostalgia, guris!?... imaginem o que devia ser a gente viver num imenso deserto verde, como eram os campos do continente de São Pedro, no início da epopéia gaúcha?... E uma coisa importante a ser dita, é sobre a força de vontade e a resignação das mulheres... vejam vocês, em todas aquelas guerras e correrias, as mulheres cuidavam das casas e da criação, quando os homens andavam nas guerras, e ninguém, melhor que elas pode falar em nostalgia e saudade. Por isso les digo: uma das principais características do gaúcho é a nostalgia – que aflora e brota na milonga!... E o meu avô Marcio sempre dizia: “Não há maior nostalgia do que um DOMINGO NA ESTÂNCIA...” “sin caballo pa´la senda, ni prenda que visitar!...” …tal os versos de Osíris Rodríguez Castillos. E completava: “Nessas horas é que a gente vê quem realmente gosta de campo!...”
    
– E de uma feita que o velho Marcio andava encambichado por uma china, e ele e o Tio Fabiano resolveram dar uma serenata pra tal da moça... que dois!... a cavalo estrada a fora, com as guitarras atadas nas costas, até chegarem ao rancho... que esta moça morava na campanha! Resultado da história... o cambicho virou casamento... e nós, a descendência do velho Marcio Nunes Corrêa, somos resultado de uma serenata. E ele sempre dizia, que não há matreiro que não caia numa recolhida... e que aquele par de olhos deixou o coração dele BANCANDO NA RÉDEA.

– Que homem gaúcho era o Tio Fabiano... ele sempre dizia: “Guri, tu tens que aprender a ouvir as histórias que te contam as VOZES DAS INVERNADAS!...” De princípio eu não entendia muito bem o que aquilo queria dizer, até que num dia, de volta pras casas duma lida de campo junto com meu avô, ele me mandou ficar quieto e escutar: “os ringidos de basto e carona  em contraponto ao tilintar das esporas... a clarinada dos quero-queros... um berro de touro cortando os campos e explodindo numa canhada...” Foi aí que compreendi – em sua forma mais pura – as palavras de Tio Fabiano!...
    
– E que sabedoria o velho Marcio havia adquirido em sua vida de professor universitário!... Escutem só: “O melhor tesouro de um homem são as amizades que ele conquistou ao longo da vida!...” ... E uma destas amizades – dele e do Tio Fabiano – era um tal Cid Mariano – um gaúcho de lei... alma antiga reencarnada dos changueadores e vagos dos inícios do conti-nente de São Pedro... estampa curada a picumã de fogo de chão,  tisnado de cambona e suor de cavalo... Esse tal Cid, dizia meu avô: “parecia um posteiro de uma estância antiga!...  taciturno, comedido de gestos e palavras!... bueno como faca achada!... e um amigo da marca grande!... que não cessava de transmitir aos demais – principalmente declamando poemas – a sua RIQUEZA DE POSTEIRO!...”
    
    – E como les contei a pouco das palavras do Tio Fabiano sobre cachorro, cavalo e peão campeiro... era muito comum – naquela época do meu avô moço – o homem do campo deixar seu pago em busca de melhores condições de vida na cidade... e terminar batendo com os costados nas vilas e arrabaldes... changueando a pobreza com alguma carrocita e um pobre matungo alquebrado... sendo marginalizado por uma sociedade falsamente progressista, onde não havia mais lugar para o homem do campo. E o Tio Fabiano dizia – quando via um destes pobres diabos perdido, em alguma esquina da cidade: “Olha aí... outro mais assobiando a CANÇÃO DE EMALAR ARREIOS!”

    O velho Marcio dá de mão numa guitarra velha – “clavija de palo”, também fruto de suas pesquisas – e, dedilhando uma milonga, diz aos guris:
    – Vou cantar pra vocês uma milonga do meu avô Marcio... AVE MARIA DA GUITARRA... é uma mistura de prece campeira, um desabafo... uma verdadeira “puteada” dirigida aos tempos em que eles viviam... onde cada vez mais não havia espaço para o pessoal e as coisas do campo:

     Ave milonga pampeana, Maria dos campeadores,
     rogai por nós, sonhadores, em cada tarde do pago.
     Nós que lavamos a erva pelas horas chimarronas,
     enfumaçando cambonas pra disfarçar os amargos...
     ...


O velho Marcio Nunes Corrêa Neto então, larga a guitarra com os olhos marejados de lágrimas – Bendita prece entre as guitarras... pega a cuia, vira o mate, enche e alcança a um dos guris.

    – E é por isso que eu les digo, guris, a mesma coisa que meu avô Marcio já me dizia quando eu tinha a idade de vocês e andava sempre grudado nas bombachas dele: quando eu morrer, ESQUEÇAM DE MIM, só pensem que eu, como o gaúcho que sou, vivo no campo, não interessa em que existência ou dimensão atemporal... isso é ser gaúcho!...

– Mas vovô, tudo isso que o senhor nos conta leva a entender que o gaúcho já morreu... e faz muito tempo!?...
    
O velho ajeita o corpo no cepo onde está sentado, absorto nos próprios pensamentos – como se não houvesse escutado a pergunta – fita todos os rapazes com olhar benevolente e res-ponde:
    
– Meus filhos!... respeito e entendo o pensamento de vocês! Mas les digo a mesma coisa que meu avô me dizia, quando eu le fazia a mesma pergunta: “O que é ser gaúcho?... Não é a-penas haver nascido no Rio Grande... ou muito menos freqüentar um CTG!... de forma alguma!... Ser gaúcho é trazer o sentimento terrunho entranhado nos socavões mais profundos da alma!... Ser gaúcho é saber o que somos, de onde viemos e ter clareza dos ensinamentos a passar adiante!... Ser gaúcho é saber que nascemos como uma sociedade guerreira, essencialmente e-qüestre e naturalmente livre!... Ser gaúcho é estar muito além do tempo, do espaço e do progresso!... Ser gaúcho, enfim, é um sentimento... um estado de espírito... uma bem-aventurança!... Esse sentimento, nenhum progresso... nenhum invento... nenhum dinheiro... nos pode tirar... o de sermos uma raça de bombachas!”

Guilherme Collares - do encarte do CD Se indo pro campo

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