Manoela, a Julieta dos Pampas

Manoela, a pelotense que seria eternizada como a noiva de Garibaldi, nasceu em 08 de julho de 1820, e foi batizada em 24 de agosto do mesmo ano, na Matriz de São Francisco de Paula. Foram seus padrinhos o capitão José Lopes Coelho Coutinho e sua mulher, Dona Anna Felicia de Souza, da corte do Rio de Janeiro, por procuração a Manoel Gonçalves da Silva e sua mulher, Faustina Leonor.

     Fernando Luiz Osório Filho, em Mulheres Farroupilhas (Editora Globo, 1935), oferece-nos uma rara descrição física de Manoela, caracterizando-a como uma mulher de grandes olhos azues, uma loura de figura gracil, que lhe representava a belleza ideal e inalcançavel, e enaltecendo-a como Gaúcha de raça, gracil filha de Pelotas, que na tua exaltação conservaste (...) a belleza ideal e a magestade do teu amor (...) por Garibaldi (grafia da época).

     Assim como Anna Victoria, Manoela também batizaria dois sobrinhos e um sobrinho-neto: em 5 de dezembro de 1854 batizou, com o seu irmão Joaquim Lourenço, MIGUEL, filho de Theresa Candida e Miguel Garcia Sanches; em 20 de maio de 1860, batizaria – novamente com Joaquim Lourenço como padrinho – a sobrinha MARIA, filha da irmã Faustina Leonarda e do charqueador Manoel José Rodrigues Valladares Filho (a qual passaria a se chamar, após o batismo,  MARIA MANOELA); em 6 de dezembro de 1877, batizaria OCTAVIO GUILHERME, filho de seu sobrinho Alfredo Pereira de Araujo Bastos e de Pamella Ludgera de Araujo Bastos (padrinho: Antonio Francisco dos Sanctos Abreu).

     Indubitavelmente, um dos fatos marcantes na biografia de Manoela é a aquisição da Chácara da Luz com suas outras duas irmãs solteiras, Anna Victoria e Francisca de Paula, pela quantia de três contos de réis, com registro notarial datado de 15 de julho de 1863 (1º. Notário de Pelotas), sendo vendedores Ezequiel Alves de Porciuncula e sua mulher, Dona Leopoldina Rodrigues Soares. Essa chácara situava-se nas imediações da atual Avenida Dom Joaquim, tinha uma área de 1412 m de circunferência e incluía um casarão com seis janelas de frente norte para a estrada do Logradouro Público, um sobradinho contíguo à casa, diversas benfeitorias e outras dependências. Lá moraram as três adquirentes com seus pais, até o falecimento destes, a irmã viúva Maria José, e vários sobrinhos. Excerto do inventário de Francisco de Paula Ferreira, datado de 1870, contrapondo-se à interdição de Maria Manoela como inventariante (solicitada por seu genro Manoel Rodrigues Valladares devido à demora do início do mesmo), menciona que Maria Manoela morava na chácara com sua numerosa família de quatro filhas, oito netas e dois netos. Esses netos seriam os filhos órfãos de Theresa Candida e Miguel Garcia Sanches, ambos os quais haviam falecido antes de Francisco de Paula, além dos filhos de Maria José, cujo marido, Francisco Pereira de Araujo Bastos, falecera em 1861.

     O tempo passou e os sobrinhos cresceram; vários casaram e partiram, e a chácara possivelmente tenha ficado grande demais, ou distante demais (localizava-se no subúrbio da Luz), para as duas irmãs proprietárias sobreviventes – Anna Victoria e Manoela (Francisca de Paula falecera anos antes, em 1875) – as quais eventualmente a venderam.

     Encontramos o registro de venda da Chácara da Luz datado de 15 de março de 1893, sendo adquirente o sobrinho Miguel Ferreira Sanches, pela quantia de oito contos de réis.

     O velho casarão, onde Anna Victoria e Manoela passaram longos anos de suas vidas, resistiria até o ano de 1922, quando foi finalmente demolido e a propriedade loteada, depois de ter sido vendido pelos herdeiros de Miguel Ferreira Sanches a Francisco Vieira da Costa e Silva Sobrinho, no ano anterior.

     Após a venda da chácara, é possível que Anna Victoria e Manoela tenham se mudado para uma área mais central de Pelotas. A tradição oral sugere que Manoela teria morado no entorno da Catedral de São Francisco de Paula, mas não encontramos, ainda, referência documental a esse respeito, exceto carta de um leitor publicada na edição de 9 de julho de 1932 no jornal A Opinião Pública de Pelotas. Nela, um morador local, ao comentar reportagem sobre Manoela publicada em edição anterior, diz: (...) convém acrescentar que Manoela faleceu a cerca de vinte e cinco anos numa casa situada à Rua Gen. Vitorino* em frente ao Palácio Episcopal, onde residia, ao que nos consta, com uma irmã. Esse prédio ainda existe e é uma das primitivas edificações de Pelotas, como bem mostra a sua construção em estylo antiquado (grafia da época).

     O autor da missiva, porém, equivocou-se num fato importante: Manoela viria a falecer, na verdade, numa pequena casa localizada na Rua Mal. Deodoro 253, atual 973, de propriedade do Coronel Vicente Vieira Braga, tio de uma de suas cunhadas, e já demolida. Lá ocorreria seu passamento no dia 21 de janeiro de 1903, às 3 horas da tarde, de asthenia cardiaca (conforme consta em seu atestado de óbito), como reza a lenda, com o nome de Garibaldi nos lábios...

     Seus restos mortais ficariam sepultados no jazigo 326 G do Cemitério de São Francisco de Paula por um período de 10 anos, até serem incinerados às 8 h da manhã do dia 24 de maio de 1913, findo o prazo de três meses a partir da data em que foram colocados em depósito à disposição de familiares, conforme dados encontrados nos autos de incineração da Santa Casa de Pelotas.

     Mas, tal qual uma fênix, Manoela e sua odisséia de amor renasceriam das cinzas.

* Atual Rua Anchieta



Pedro Luiz Brum Fickel – Tradutor, Professor e Historiador

Esta palavra possui 6 comentário(s). Clique aqui para visualizar e comentar.

Não quer ficar
no campo?
Voe para a cidade.



Marcio Nunes Corrêa - Vida no Campo: Querência | Raízes | Vivências | Regalos | Retratos | As novas | Opinando... | Versos | Campo lindeiro | Marcas | Chasque
Marcio Nunes Corrêa - Vida na Cidade: Home | Quem sou | Atividade Profissional | Fotos | Notícias | Crônicas | Poesias | Palavra dos amigos | Contato

Todos os direitos reservados | Marcio Nunes Corrêa