Realidade

Viajava no meu carro rumo à uma atividade de trabalho…direito à Santa Maria por onde apenas passaria de viagem, como quase sempre.

OBS: Santa Maria da Boca do Monte ou Santa Maria do Coração do Monte?!?!?!...

Ar condicionado no quente…mate na mão e sozinho a estrada passava. Era dia 19 de julho, 6 e pouco da manhã…5 graus de temperatura marcava o carro, quando então comecei olhar para o lado e para a frente, querendo ver os lados que ligeiramente o carro engolia.

Que cena!....o Rio Grande era tragado por uma nuvem de cerração esparsa, que formava imaginárias ilhas entre o campo e os capões de mato que se amontoavam espaçadamente por entre o mesmo…e uma geada espichava o lençol desproporcional mas constante no campo - já não tão verde.

Lindo…e meu pensamento (e quem sabe o corpo), quiseram caminhar naquele campo que meus olhos nostalgicamente apreciavam.

Me lembrei do frio…de quando guri - enquanto passava por uma casa de madeira humilde da beira da Estrada - do tempo que passei com meus avôs…em Quatro Irmãos. Da casa uma chaminé fumava um cerno, que pela fumaça lembrava o comum de uma casa de campo. Nada tão comum num dia de frio.

Lembrei de quando acompanhava meu avô, por gostar de estar com ele…nestas manhãs. Primeiro para buscar lenha no porão, quando apoucava a lenha da caixa (que ficava do lado do fogão número 2, que minha avô fazia aquelas bóias simples e buenas). Depois para buscar as tambeiras não tão cedo, mas cedo suficiente para encontrar gelo na grama (o tão citado e poético “Quebrando Geada”).

Aí lembrei do frio que sentia - o pé principalmente – que só não era maior pelo calor que sentia pela companhia do meu avô.

Na volta calma de tocar as tambeiras do potreiro, realmente dava para ouvir a geada estalando. Por curioso, muitas vezes quebrei a folha da grama com a mão, para observar o pasto quebrando de fato!

De dentro do carro pensei porque tanto já descrevi nos meus versos imagens e cenas, a beleza de tudo isso?!?!?...Talvez pela beleza bucólica desta realidade. Mas nunca descrevi do frio, do calor, do trabalho, enfim…das dificuldades do homem do campo. Da Realidade. Do dia-a-dia constante, repetitivo e muitas vezes, na maioria, não tecnológico. Laçar um terneiro para curar é lindo…é da lida, é realidade. Mas sentir o laço queimar a mão (por mais calos que tenha), também é realidade doída da lida…sem falar em outras ainda mais. Falo desta, porque é um dorzinha que fica….que acompanha o dia todo…miúda mas aguda.

Liguei o rádio…custoso foi encontrar uma que tocasse uma marca com gaita, quanto mais gaúcha. Quando encontrei…a dor foi bem maior que a mão “assada” do seio do laço. Um amontoado de palavras narrando um gaúcho que não existiu, não existe e se Deus quiser não existirá. Desliguei o rádio e preferi seguir somente observando enquanto o carro engolia a estrada.

Ver o campo é música para os olhos.



Marcio Nunes Corrêa

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