Entrevista à Patricia Berlanda - http://prosaproseada.blogspot.com/

01) És natural de onde? Idade?
Erechim-RS, 37 anos

02) Qual sua relação com o campo, cavalo, com a fronteira(região do prata) ?
Minha terra é nos Campos de Planalto, Alto Uruguai, no Norte do estado do Rio Grande do Sul (Erechim divisando com Passo Fundo).
Fui criado, até ir estudar (fazer Medicina Veterinária), num convívio permanente com o campo...meu avô possuía campo e lidava com gado e meu pai, preparava cavalos para rodeio além de termos um centro de doma. Portanto, o cavalo e o campo, fizeram parte integral e fundamental da minha infância e adolescência.

03) Suas referências e influências de vida (música, literatura, pessoas)?     
Música: Cenair Maicá
Literatura: Aureliano de Figueiredo Pinto
Pessoas: Meus pais e meu avô paterno; e as pessoas de bom coração que conheci e estou sempre conhecendo.

04) Como começaste sua relação com a música, com a composição?        
Comecei a compor ainda adolescente, mas foi em Pelotas (aonde vim estudar), que conheci Juarez Machado de Farias (poeta de Piratini), que na época fazia faculdade de Direito e leu meus primeiros versos, me incentivando.
Sempre cantei...desde guri em casa, no campo com meu avô (Dom Pedro Corrêa) e nos acampamentos de rodeios, mas também em Pelotas, distante um pouco das atividades de campo é que me entusiasmei mais a escrever e também cantar. Fiz parte do Coral da UFPel e iniciei minhas participações nos festivais (inicialmente pelo Cirio de Pelotas, na sua 1ª. Edição em 1994).

05) Como conciliar a vida acadêmica com a vida artística e familiar?
Como tudo na vida, trata-se de em cada priorizar o que é necessário ser feito, para ter-se certo equilíbrio na vida...não é fácil, mas necessário exercitar diariamente pois nossa alma também precisa de alento e se não pensarmos nisso endurecemos nosso coração.

06) O que te incentiva continuar compondo?
Minha vontade de falar do campo e das coisas que penso, pude viver e sei que se não registrarmos, poderá se apagar ou mudar de alguma forma a identidade do que é verdadeiro e puro.

07) Os sacrifícios que já fizeste pela música?
Eu não chamaria de sacrifícios, pois a música sempre fez e me faz bem...conheci amigos, pessoas e sentimentos que não o teria, não tivesse vivência na música. Atualmente, o tempo é escasso para se manter as mesmas relações rotineiras com a música, mas acompanho meus amigos e parceiros da música, torcendo por eles e, na medida do possível, não deixo de compor...pois isso seria seria um sacrifício. Apenas tomo o cuidado de compor quando tenho algo a dizer e não fazer verso por fazer.

08) Te arrependes de ter feito algo ou não ter feito pela música?
Não tenho lembrança de algo nesse sentido...

09) Inspirações para compor?
Aquilo que entendo por verdade, seja daquilo que vejo na vida e no campo...e que me faça bem. Penso que não precisamos ou devemos compor pensando em agradar ninguém...ou seja, é preciso fazer arte expressando realmente um sentimento...naturalmente algumas pessoas se identificarão com a temática ou com a opinião, ou mesmo serão contrárias mas terão pelo menos ouvido nova verdade ou nova mensagem. Com isso deixo claro que as inspirações/idéias surgem no cotidiano...alguns expressam falando, chorando, desenhando, etc., etc...quem escreve deve se expressar em versos. Claro que há que se ter conteúdo e isso é essência de tudo, passar verdades que são da gente e, como já disse, naturalmente serão de outros...pois afinal, nós seres-humanos somos muito parecidos.

10) Tem alguma música que gostaria de ter feito e não fez, e o que fizeste e tens um carinho especial?
Todos que fiz guardam uma História, portanto, seria injusto eleger alguma...injusto com cada verdade que retratei.
Tem muita música que eu queria ter feito, por admirar a forma que o poeta pode expressar sua opinião, que o melodista conseguiu expor sua musicalidade ou mesmo como o cantor retratou tudo...mas me ocorre uma que resume muito do que eu penso...Imagens, letra do Anomar Danúbio Vieira e melodia do Marcello Caminha.

11) O que almeja que sua música alcance?
As pessoas...que minhas mensagens fiquem para ser apreciadas, entendidas, criticadas, enfim...que exista principalmente através dos meus versos a possibilidade de falar do campo, como pouco já se fala...sem rebuscar verso, sem distorcer a lida, ou seja, expressar meu sentimento verdadeiro em imagens das coisas do campo.

12) O que tem ouvido mais nos últimos tempos?
Infelizmente nossa discografia ainda que siga forte, não tem estado tão criativa como em outros tempos...os temas estão se repetindo, versos e melodias de alguma forma também. Gosto de ouvir música de qualidade, que tenha conteúdo poético ou mensagem...e não sou preconceituoso. Mas obviamente nada como ouvir a música feita falando de sul, de lida, de campo....bem cantada e isso temos muito no RS e SC...gente buena se esforçando para manter o padrão de qualidade. Ou seja, para selecionar-se o que agrada ou não o ouvido é preciso ouvir, sentir e depois esboçar opinião, ou seja, o consumo se dará, ou se escutou uma música pela última vez. 

13) Show que foste - livros que têm lido?
Fabrício Vasconcellos e Fabiano Bacchieri (versos e canções)....trabalho terrunho pela escolha do repertório e pela qualidade dos dois.
...os 2 últimos: Memória de minhas putas tristes (Gabriel García Márques) e Mitologia (Histórias de Deuses e Heróis – de Thomas Bulfinch).

14) Como vês a influência da música da região do Prata na música nativista gaúcha?
Integração total...nossa música é muito influenciada e felizmente é, pela música gaucha. Temos muito o que aprender com os hermanos mas com certeza ao tempo temos criado uma identidade musical ainda que sob influências (e isso é natural do desenvolvimento cultural de um povo) mas com uma “cara” particular.

15) Festivais, primeiro festival composição e parceria?
Primeiro festival...Círio de Pelotas em 1994, com a milonga Fronteiro...em parceria com um colega de faculdade, o Corredale.

16) Como encaras esse meio ao mesmo tempo aberto, democrático, mas também bastante criticado por certa impressão de “panelas” dos festivais? Festivais fora do RS, festivais fechados?
Não entendo que existam panelas. Como em todo movimento cultural o que existe são afinidades e gostos...que aproximam certas pessoas e afastam algumas outras. Isso existe. Porém, quem critica o faz normalmente porque talvez não tenha amadurecido seu trabalho o suficiente e quando em “concorrência” numa triagem por ex, não tem ainda um trabalho a altura de outros que vivem, estudam e se aprimoram dia-a-dia. Sinceramente, raras vezes, mas muito raras vezes, vi uma grande composição que por anos nunca teve seu espaço...às vezes, por questão de gosto uma ou outra música não premia, por ex, num festival. Mas não podemos atribuir isso a panela, a princípio. Por outro lado, como em tudo, sabemos que o ser - humano é falível...e nesses casos, havendo injustiça premeditada, que estas pessoas sejam acusadas de fato, com provas...porque se por um lado não podemos fazer falsos apontamentos, por outro não podemos deixar que ninguém brinque com o sentimento de ninguém.

17) Fala um pouco da tua experiência nessa trajetória dos festivais? Triagens, premiações?
Felizmente, participei com minhas músicas de praticamente todos os festivais nativistas do estado do RS e também SC. Como são muitos anos enviando trabalhos e compondo, tenho essa felicidade. Quanto a prêmios também tenho a satisfação de ter sido muitas vezes premiado, em conjunto com meus parceiros. Brevemente, lançarei um site em que divulgarei cada prêmio...cada música, festival, etc. (www.marcionunescorrea.com) 

18) Vencer o bairrismo é algo que inevitavelmente, acontecerá...ou achas que não existe essa diferenciação de estados? Acreditas que algum dia a música mais trabalhada (gaúcha/nativista) alcance um respaldo maior dentro do cenário musical brasileiro?
Não. Não acredito. Nossa música em seus ritmos, seus temas, sua linguagem é universal para nosso universo...nosso país é muito grande...são vários países num só. Sinceramente, nem quero pensar que nossa música algum dia alcance esse ponto. Acho impossível. O que entende um brasileiro sem rotina nos nossos campos, com nossa História, bioma, etc. ao ouvir a frase?... por ex: - Mal clareia, antes de alçar a perna no meu redomão, percebi que a geada entanguia a várzea, bem mais que na minha melena tordilha.

19) Fala um pouco da tua experiência como jurado, estás preparado pras críticas, como lidas com elas?
Não tenho experiências como jurado de festivais grandes....mas nos que participei, ache algo natural ou seja, sendo sincero com o que pensamos e sentimos como adequado ou de qualidade, não há problemas. Basta sermos sinceros ao que pensamos. Porém, confesso que ser jurado de festivais é uma tarefa que em nada me atrai.
Quanto à crítica, ninguém gosta de ser criticado, mas precisamos aprender a conviver com elas...ainda que seja difícil.

20) Como é a sua relação com os outros músicos de SC e RS, Argentina, Uruguai?
Em relação a outros países, não tenho relação pessoal ou de parceria...apenas admiro-os muito. Já no RS e SC conheço muita gente buena...alguns convivo muito pouco, mas sei deles e penso que sabem de mim...pelos meus versos.

21) Como é pra ti saber que sua música ganha fronteiras além do RS?
Uma alegria sem tamanha...isso fortifica o que falei, ou seja, que a mensagem ganhando estrada, esteja alcançando muitas almas e corações desprendidos.

22) Como lida com o assédio que vem naturalmente como resposta ao trabalho que desenvolve? Como é tua relação com os fãs e com os novos músicos?
Hehehehe. Comigo não existe isso. Apenas recebo o carinho de pessoas que ouvem os versos, uma eventual música que cantei, pois não sou cantor, mas me arrisco... Estou sempre disposto a ajudar, orientar, etc., quem me procura...tenho muito parceiro hoje de destaque (músicos e compositores), que iniciaram fazendo parcerias comigo em palcos e em composições. Portanto, fui ajudado e sempre estarei à disposição para ajudar, dar uma dica, uma orientação para alguém que queira madurar um verso, que é onde me arrisco mais.

24) Viver de música : utopia ou realidade?
Eu não vivo profissionalmente da música, pois tenho outra atividade profissional. Mas percebo que hoje em dia muitos amigos vivem da música e se dedicando, estudando, etc..


Patrícia Berlanda e Marcio Nunes Corrêa em 18/01/2012

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