Volteando a macega pra queimar

Na vida é preciso jeito. Sim. É necessário que nossas intenções, nossas ações sejam pautadas pelo respeito o que inclui a necessidade de conversar com as pessoas...sejamos os coordenadores de tais ações ou os coordenados que deverão atuar na execução.

Quando guri (talvez com com meus 12 anos), acompanhei umas 2 ou 3 vezes meu avô Pedro numa atividade cada vez menos comum. Na época era prática considerada necessária, que uma vez por ano e ao final do inverno fosse queimado o campo. Assim, a palhada seca seria queimada favorecendo que com o clima da primavera o campo renascesse verde.
Até já ouvi um ou outro defendendo esta prática, mas atualmente o que mais ouço de Agrônomos é que esta queimada na verdade traz malefícios para o campo e que outras estratégias como a roçada seriam mais adequadas.
Independente da questão técnica envolvida (e não é meu objetivo discuti-lá), empiricamente a queimada era muito utilizada.

Mas sempre me chamava atenção o que meu avô fazia antes de iniciar a queimada...ele volteava calmamente o capim barba de bode, escolhia a palhada mais seca e no pé da macega colocava fogo. Com a mão em concha aparava o palito de fósforo do vento até que a chama tomasse conta. Depois com a rédea na mão, arrastando espora, caminhava até outra macega para repetir o rito.
Eu adorava a lida, pois me divertia com aquilo. Enquanto caminhávamos um rastro de fogo e fumaça tomava o campo que deixávamos para trás. Nessa descrição sinto o cheiro da fumaça que produzíamos.

Hoje toda a vez que alguém vem falar comigo com a fala mansa, espichando o assunto, demorando para chegar ao ponto (ao tema da conversa de interesse), sendo prolixo, lembro do meu avô volteando a macega pra queimar.

Do meu avô só tenho lembranças boas, somente muito boas. Até nessa queimada que proporcionava e um eventual dano ao campo, na sua formação de campo ele entendia que estava cumprindo um ritual correto para o campo, o que seria melhor depois para o gado e cavalos. Mas seu ato, sabemos hoje, é no mínimo discutível e sou destes que acha que esta queimada é provavelmente prejudicial.

Assim, toda a vez que alguém começa a ser prolixo comigo, numa conversa, lembro que esta volta pode ter por objetivo algo prejudicial a mim ou a alguém. Em geral, quem não quer teu mal, chega e fala...ainda que não nos agrade inicialmente. 

Obviamente, como dito no início deste texto, é preciso ter o cuidado para não faltarmos com o respeito, ofendendo por apressados, os valores ou os sentimentos mais íntimos de uma pessoa. Mas afora isso, o que tem de ser dito, deve ser dito. Pode doer, mas será sincero. Sei também que algumas pessoas são prolixas e não são maldosas...mas é preciso identificar se a pessoa é prolixa mesmo ou está volteando a macega pra queimar. Fica a sugestão...ser prolixo não é qualidade para ninguém.

Marcio Nunes Corrêa

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