Liberdade poética

Por conceito liberdade/licença poética é uma imperfeição/incorreção permitida na poesia, ou seja, qualquer afirmação, tese ou opinião que não seriam entendidas por correta, exceto na literatura.

Permitam-me ir além...versando sobre esta definição.

Existem certas situações, que não entendo por adequado, que alguém que escreva possa se justificar por esta "muleta literária". Uma delas, e desta eu não abro mão, é a descrição do campo e suas cenas (lidas, vivências, etc). Leio e ouço com alguma frequência relatos equivocados ou mesmo exagerados de certas cenas de lida ou mesmo da vida do homem do campo. Obviamente, nós (que somos a maioria), que vivemos na cidade e que em algum dia tivemos ou temos vivências ou experiências no campo não somos necessariamente detentores de todo conhecimento campeiro. Não haveria como, exceto se tivéssemos rotinas de vida integralmente ligados ao campo e por muitos anos. Sendo assim, entendo que não há mal que se questione pessoas que possuam tais experiências ou mesmo que sejam buscadas informações bibliográficas que possam transmitir verdades do campo em nossos versos ou textos. Entendo isso, acima de tudo, como um ato responsável com a História do Rio Grande do Sul, no mais amplo do entendimento.

Certa feita ouvi um relato que o Aureliano de Figueiredo Pinto (mestre do verso campeiro), por médico de profissão, se "abastecia" ou renovava ou atualizava seu conhecimento de campo nas consultas à homens e mulheres de campo, os quais por força da profissão convivia.
Portanto, queiramos ou não o mundo é outro. Temos rotinas de vida, que mesmo ao homem de campo que escreve (exemplo atualmente do poeta Zeca Alves), que um campeiro dos antigos jamais sonhou...como por exemplo o acesso a mídias e tecnologias para uso em qualquer âmbito, seja pessoal ou profissional. Estas mudanças fazem com que a visão mesmo do homem mais atento ou que vive no campo, tenha soluções ou definições para questões do campo, sob um outro modelo de pensamento...o que acaba determinando mudanças de atitudes, que soariam estranhas ao homem do campo há algumas décadas.

Versamos com maior ou menor conhecimento sobre situações que nostalgicamente nos fazem bem, nos permitem contar histórias, narrar imagens, que na forma da palavra sensibilizam o imaginário de quem lê e, em última análise, tem um efeito perpetuador desta realidade, que hoje é muito mais um relato de uma realidade que se afastou de nossos dias (em maior ou menor escala).
Portanto, mesmo para o uso de metáforas há que se ter cuidado na construção de um verso com temática campeira...a liberdade poética não pode ir além daquilo que é real, exceto se o cenário é o campo e o verso trata de sentimento e aí sobre o sentimento cada um descreve o seu. Enfrenar um cavalo, independente do tipo de freio, será sempre enfrenar um cavalo. Não se usa um tento na boca de um cavalo que é relatado como um cavalo sendo enfrenado, exceto que o domador resolva devolver o cavalo ao bocal para algum ajuste de comportamento, mas isso se dito deve ser entendido por quem lê, para que uma inverdade simples da lida, não se torne uma verdade do "verso para adiante".

Por outro lado, é preciso identificar aquelas situações que ao tempo foram sendo ambientalizadas ao momento em que vivemos. Certa feita citei num verso um carreteiro de úbere. Um amigo me criticou mencionando que não existia carreteiro que não de charque...sem antes me perguntar, se eu me referia há um carreteiro de charque de úbere, por exemplo. Poderia ele também, dizer que charque na origem é de carne e pronto. Nesses casos há de se contextualizar ao nosso tempo em que carreteiro é usado até mesmo para referir-se a arroz com carne fresca e também com a região em que se está ambientando o verso narrativo.
Portanto, trazer o relato para uma realidade atual/momento é inclusive recomendável. Seria esquisito narrar nos tempos de hoje, um campeiro laçando num rodeio trajando um chiripá.
Assim, não há liberdade poética que aceite bobagens seja um verso descritivo ou mesmo usando o ambiente do campo, para descrever um sentimento.

Poesia é poesia mas campo é campo e lida campeira é lida campeira...ponto.

Marcio Nunes Corrêa

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