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A face num livro

Por instinto somos todos seres exibiocinistas. Mesmo os tímidos. Se observarmos com alguma atenção, seguidamente nos deparamos falando de nós mesmos. Preste atenção em si e nos seus convívios. Se não falando, pensando! Para nós todos, a coisa mais importante que existe somos nós mesmos...e não adianta brigar contra isso. Julgo até que seja atávico! Obviamente nossos amores, por exemplo filhos, são a maior graça, conquista ou divindade que alguém possa ter, mas não é disso que falo.

Um exemplo...para não “ir longe” é o que temos observado nas comunidades sociais via redes de computadores, mundo a fora. Um fenômeno de relacionamentos virtuais, destes de poucos defeitos, poucas distorções e que só se mostram naquilo que escapa ao filtro dos nossos regramentos sociais, estabelecidos ou pregados, ou seja, destes que não são reais. Além disso, não são poucas as vezes que me deparei com amigos virtuais, que além de não estenderem o olhar em minha direção, tampouco me cumprimentaram.

Mas ainda assim, deu certo e como deu. Dinheiro, números espantosamente incríveis de “amizade midiáticas” que atualmente revelam-se num rentável e admirável negócio. As vezes reflito, observando a dificuldade atual das pessoas se relacionarem e do que será do futuro?!?!?...Como se darão certas relações (que são a maioria), em que o contato, a conversa, a discordância e o bom senso são fundamentais. As pessoas atualmente dizem ou pensam que se relacionam facilmente mas não estimam quantos dos seus relacionamento realmente são reais. São esses que interessam...são estes que nos fazem aprender que ser feliz é bem mais que estar de acordo em tudo e sempre com todos, até porque isso não existe...aliás só existe no mundo virtual.

Há algum tempo resolvi participar também deste mundo virtual. Na dose certa ou exagerada optei por mostrar um pouco quem sou. Coloquei minha face no livro. Sinceramente, as vezes repenso o valor real deste ato...mas até esta data, sigo no livro.

Por óbvio alguns movimentos deste processo são realmente muito interessantes...tais como rever pessoas, saber da vida de outros queridos...mas nada se compara ao sentimento de saber da vida do outro. Pior é saber que ali, e raras são as exceções, não se encontra a vida de ninguém e sim o arremedo do que seriam suas vidas. Raro também observar-se fotos em que a pessoa, por exemplo, tenho piscado um olho, mostrado um sinal mais saliente, etc...ou seja, só vai o que há de melhor. Assim nas idéias...nestas comunidades se reúnem salvadores do caráter e do mundo....talvez alguns que ainda não aprenderam a colocar o lixo no local próprio ou mesmo a dar um Bom Dia à um mendigo ou mesmo à um colega de trabalho ou à um amigo de verdade.

E o tempo?...pelo o qual tanto reclamamos...imploramos por mais e atribuímos culpa? Já pensaram quanto tempo é utilizado nestas redes sociais?...procuro me policiar muito, pois com certeza todos concordarão que a vida oferece muitos e variados prazeres, dos que estes de estar atento pela janela do oculto, olhando faces nos livros virtuais!...Mas impressiona o envolvimento cego de milhões de pessoas, interessadas nestes livros.

Ainda lembro um tempo, na minha adolescência, em que após a janta meus pais iam tomar mate na casa de parentes ou amigos para conversar um pouco sobre as coisas do tempo. As mulheres geralmente assistiam novelas comendo pipoca com um mate que de vez em quando chegava na sala nas mãos de um dos homens. Estes ficavam na cozinha, calçada ou varanda, enfim...mateando e jogando conversando para dentro, ou seja, se alimentando de suas opiniões. Aos mais novos um mate ou outro mas geralmente sobrava um guaraná ou soda, para acompanhar os beliscões na pipoca. Nessa rotina as faces não estavam em livros virtuais mas sim expostas aos olhares de todos, com suas rugas de tempo, imperfeições fenotípicas, mas acima de tudo com a verdade de cada um sendo dita, medida e avaliada pelas feições.

Opiniões eram expressas no mural das vozes. A aprovação a que atribui-se hoje o conceito de curtir, demonstradas num sorriso ou num rosto de desaprovação. E para compartilhar levava-se um tempo...quem sabe dias. Esse compartilhamento podia até virar fofoca e disso há semelhanças com as redes sociais. A fofoca é também do instintivo humano...só que até nisso quando as faces se mostravam reais parecia que a fofoca era mais humanizada.

Os grupos que se organizavam em torno de algum objetivo eram também diferentes...pois existiam de fato. Eram as comunidades religiosas, desportivas, culturais, tradicionalistas, que mesmo que ainda existam atualmente, me parecem que cada vez mais rumando à extinção ou para a falta de motivação coletiva.

Também não se cutuva ninguém, a não ser num baile ou numa briga. De outra forma, se abraçavam as pessoas ou se apertavam as mãos.

Nem por tudo me esquivo da verdade que as ditas redes sociais trazem benefícios também...mas o ponto em que me pego é no que é real e no que é virtual, sem sangue, sem cheiro, sem tempero...

Não só por culpa destes livros virtuais mas também por culpa disso, a cada dia vejo as pessoas com maior dificuldade de conversar e estabelecer consenso. E não falo de unanimidade, pois esta é Historicamente uma impossibilidade no mundo humano. Mas o raciocínio é óbvio: se estando longe só conviverei com aquilo que me interessar, porque estar próximo?...este também é um comportamento instintivo, ou seja, buscar afastamento daquilo que não me interessa a princípio; o que também é um engano, pois é impossível viver num mundo em que tudo é como penso que deva ser ou tudo é regrado por pré-conceitos ainda não impregnados em nossa rotina carnal de erros e acertos.

Quero de volta o tempo em que colocar a face num livro signifique olhar frente a frente para alguém que por tamanhas virtudes e tantos defeitos, se pareça comigo.



Marcio Nunes Corrêa

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