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Romance da Despedida
Eu vim...
Atravessando fronteiras,
Irmanando bandeiras
da alma e da geografia.

Nos portais da minha infância
o presente e o passado,
e uma legião de apaixonados
com olhos vertendo ânsias;
Pesando na mala as distâncias
e imagens imortais,
que lhes garanto jamais
me sairão da memória.

Aquelas manhãs compridas
de um galo cantarolando,
Da vaca mansa berrando
a exigir sua cria;
Da petiça arredia
- piqueteira e baldosa -
que todas manhãs manhosa
dava uns pulitos comigo.

E as pescarias na sanga,
Os banhos no açude calmo,
Um sabiá entoando um salmo
num galho lá do pomar;
E ainda o revoar
das garças e quero-queros,
( coisas que eu espero
viver de novo um dia ).
 
E o meu cusquinho oveiro,
Ah! Pobre do meu oveiro,
brincava pelo terreiro
no dia em que eu parti,
( como que a me pedir
- ganiçando em alvoroto -
 que eu ficasse mais um pouco
pra uma última caçada ). 

Ou quem sabe as lembranças
são das festas pelo povo,
- destas que quem é novo
adoça seu sentimento -
Que seja um apartamento
Ou as ruas pela cidade,
O que importa é que a saudade
é igual do mesmo jeito.

E aquele sorriso intenso
a imitar mil jasmins,
foi minha paixão mirim
que eu trouxe junto ao peito,
- um olhar que é um leito
pra navegar fantasias -
Um manancial de alegrias
 a verter águas de vida.

Meu pai, minha mãe e meus irmãos
sentiram mais do que tudo,
( pois queriam dar-me estudo
mas não sentir esta dor ),
Que só quem tem muito amor
sente numa partida,
Pra que sempre a despedida
seja um motivo pra volta.
 
Cheguei...
Cruzei caminhos,
Provei de espinhos
e do aroma das flores.

Tudo era novo pra mim,
Os olhares, as calçadas,
as paredes da pousada,
Amigos recém amigos,
Eu encontrava motivo 
- pra uma lágrima cansada -
numa foto desbotada
de um tempo colorido.

E vieram as aulas...
A angústia das provas,
Colegas de cara torta
pela nota recebida,
Aquela olhada comprida
para a prova do vizinho,
O resultado daninho
de uma noite mal dormida.

E os professores buenachos
e outros menos um pouco,
Aquele jogo de truco
num intervalo espichado...
E o cantar afinado
das gurias no corredor,
- extrato de alegria e cor
pra embeber os  nossos dias -
 
Jantas e festas da turma
num ambiente familiar,
Onde pude abrigar 
amores e agonias;
E naquelas aulas tardias
eu tinha um parceiro calado,
Era um mate bem cevado
pra esquecer frio ou calor.

Aqui escrevi o livro
da biblioteca da vida,
( que tem páginas sofridas
ao meio de outras boas ),
Aqui conheci pessoas
que construíram meu mundo,
Sorvendo a cada segundo 
o néctar dos dias.

Agora que eu me vou...
 a despedida dói fundo,
Talvez por ver o meu mundo
com olhos um pouco tristes;
Mas se é verdade que existe
um caminho de retorno,
quero me perder num sonho
para me achar com vocês.

Por certo o que vai na estrada
é minha carne metade,
Que vai levando saudade
e ânsias que ninguém acalma;
Mas a minha parte alma
eu deixo no coração,
Dos que sentirem emoção
ao me ver mesclado ao pó da estrada!


Marcio Nunes Corrêa - homenagem à minha turma de faculdade

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